• 16/06/2024

Vladimir Putin ameaça retomar testes com armas nucleares

O presidente russo, Vladimir Putin, voltou a sacar a carta nuclear na sua disputa com o Ocidente em torno da Guerra da Ucrânia, ameaçando retomar testes de ogivas atômicas a serem empregadas em seus novos mísseis estratégicos.

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Em seu discurso anual na 20ª reunião do Clube Internacional de Discussão Valdai, entidade ligada ao Kremlin, Putin afirmou que a Rússia poderia voltar atrás na ratificação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

“A Rússia assinou e ratificou o tratado, mas os Estados Unidos só assinaram. Os cientistas dizem que novas armas precisam ter suas ogivas testadas. Eu não sei dizer agora se os testes são necessários, mas diria que podemos ter uma volta atrás na ratificação”, afirmou.

Putin respondia a uma questão sobre o tema, que voltou à baila nesta semana após a influente diretora da rede de TV estatal RT, Margarita Simonian, ter defendido explodir uma bomba atômica em um local desabitado da Sibéria para alertar o Ocidente acerca dos riscos de seu apoio continuado a Kiev.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, negou tal intenção, mas Putin recolocou a bola em campo. Afirmou também que os testes com o míssil de cruzeiro de propulsão nuclear Burevestnik foram completados, como analistas suspeitavam, e que ele está pronto para produção.

“Faltam apenas detalhes legais e burocráticos”, disse o russo, afirmando assim ter encerrado o ciclo de desenvolvimento das seis “armas invencíveis” que havia anunciado ao mundo em 2018, para grande ceticismo de observadores militar.

Aquela de produção mais conturbada, o Burevestnik, é descrita como um míssil que voa com autonomia indefinida, como um drone nuclear esperando para atingir seu alvo. Os mísseis hipersônicos Tsirkon e Kinjal já estão em operação, assim como o modelo balístico intercontinental pesado Sarmat. Completam a lista o torpedo nuclear Poseidon e uma nunca detalhada arma a laser.

O tratado que baniu testes nucleares de todo tipo foi elaborado em 1996, mas não entrou em vigor porque 8 dos 44 Estados que participaram de sua negociação cuja ratificação do texto era condição para tal não o fizeram ainda, incluindo os EUA. Acordo anterior, de 1963 e ratificado pelas potências, vetava todos os ensaios exceto os subterrâneos.

Moscou e Washington detêm 90% das cerca de 12,5 mil ogivas nucleares no mundo, herança da corrida armamentista da Guerra Fria, encerrada em 1991 com o fim da União Soviética. No começo deste ano, Putin suspendeu a participação russa no último tratado de controle de armas estratégicas, aquelas mais poderosas que visam aniquilar cidades e encerrar guerras.

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Foi um de seus passos para lembrar os rivais no Ocidente de que a Rússia que combatem indiretamente na Ucrânia, fornecendo armas, treinamento e inteligência para Kiev, é uma potência nuclear. Isso tem levado ao ritmo compassado de entregas: tanques pesados só foram dados aos ucranianos após mais de um ano de guerra, e caças ocidentais seguem sendo uma promessa.

A ameaça de Putin ocorre no mesmo dia em que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, se encontrou com líderes da Comunidade Política Europeia, grupo que reúne os apoiadores de Kiev na guerra, em Granada (Espanha).

Assoprando após morder, contudo, o presidente russo voltou a dizer que não pretende mudar sua doutrina nuclear, que prevê o emprego da bomba apenas em caso de ataques análogos ou de de risco existencial ao Estado. Assim, “não faz sentido” falar no emprego de bombas táticas, de uso limitado, na Ucrânia. Ele já havia dito isso na reunião do Valdai no ano passado, perto de Moscou.

Putin usou seu discurso e a sessão de perguntas posterior para reafirmar suas posições acerca do conflito com o Ocidente, que ele remeteu ao tratamento “arrogante” dispensado à Rússia após o ocaso soviético. “Eu até sugerir entrar na Otan [aliança militar ocidental, em uma entrevista em 2000 à rede BBC], mas eles não quiseram nada conosco”, afirmou.

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“Nós não provocamos a dita guerra na Ucrânia, e sim estamos querendo acabar com ela”, disse, acusando o Ocidente de apoiar o “golpe inconstitucional” que derrubou o governo pró-Moscou em Kiev em 2014, uma das sementes do conflito atual. “Não é um conflito territorial, não queremos territórios. É sobre o princípio de uma nova era mundial”, disse Putin, que anexou a Crimeia como primeira reação aos eventos de nove anos atrás.

Comentando a saudação a um veterano nazista durante visita de Zelenski ao Parlamento do Canadá, há duas semanas, afirmou que o episódio foi “nojento” e voltou a dizer que pretende “desnazificar a Ucrânia”.

Queixou-se de Kiev, afirmando que os vizinhos seguem recebendo dinheiro russo para o trânsito de gás natural por dutos que ligam a Rússia ao Leste Europeu. “Eles nos chamam de bandidos, mas sabe como é, dinheiro não tem cheiro”, afirmou.

No mais, Putin voltou a dizer que apoia uma expansão do Conselho de Segurança da ONU, citando os parceiros do grupo Brics Brasil, África do Sul e Índia como candidatos naturais, em um processo “bem negociado”. Repetiu também o tema de um multilateralismo que respeite diferenças civilizacionais, e afirmou que sua aliança com a China na Guerra Fria 2.0 “não é contra ninguém”.

(Folha de São Paulo)

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