• 20/08/2026

Pesquisa aponta que 81% dos brasileiros consideram fundamental que candidatos acreditem em Deus

Levantamento da UFF revela influência da religião nas expectativas dos eleitores e mostra diferenças significativas de acordo com a renda

A relação entre religião, valores e política continua ocupando espaço relevante na sociedade brasileira. Um levantamento inédito aponta que 81% dos brasileiros consideram fundamental que seus candidatos nas eleições acreditem em Deus.

Os dados fazem parte de uma pesquisa do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF). O estudo foi apresentado nesta quarta-feira (19), durante a abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade: religião, política e valores, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um dos pontos que chamam atenção é a diferença de percepção conforme a faixa de renda. Entre os entrevistados que recebem até um salário mínimo, 89% consideram fundamental que seus candidatos acreditem em Deus. Já entre aqueles com rendimentos de 10 a 20 salários mínimos, o percentual cai para 57%.

Crença em Deus aparece associada a valores sociais

A pesquisa também identificou uma presença expressiva da figura do Deus cristão nas percepções dos entrevistados, especialmente entre as parcelas de menor renda.

De acordo com o levantamento, 74% concordam com a afirmação de que Deus faz as pessoas serem melhores. Entre os brasileiros que recebem até um salário mínimo, esse percentual chega a 86%.

Outro dado apresentado mostra que 82% defendem que as escolas devem ensinar crianças e adolescentes a acreditar em Deus.

Apesar da valorização da fé, os pesquisadores identificaram que essa percepção não necessariamente se transforma em confiança nas instituições religiosas.

“Mas, curiosamente, essa valorização significativa de Deus não se traduz em mais confiança nas instituições religiosas, sobretudo igrejas, que costuram o cotidiano religioso”, afirmou a socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF.

Confiança nas instituições religiosas

Entre as instituições religiosas analisadas, a Igreja Católica apresentou o maior índice de confiança: 56% dos entrevistados disseram confiar na instituição.

Na sequência aparecem as igrejas protestantes, com 51%, enquanto os centros kardecistas registraram 19%.

Os resultados mostram, portanto, uma diferença entre a importância atribuída à crença em Deus e o grau de confiança depositado nas organizações religiosas.

Pesquisa também aborda percepção sobre Estado laico

Outro aspecto analisado pelo levantamento envolve a relação entre religião e Estado. Segundo os dados apresentados, 54% dos entrevistados defendem que o Estado não seja laico.

Para Christina Vital, o resultado também pode estar relacionado à compreensão que parte da população tem sobre o próprio conceito de laicidade.

“Existe confusão sobre o que é laicidade. Quando perguntadas sobre isso, ouvimos muitas coisas diferentes e que não se relacionam com a separação entre religião e Estado”, explicou a pesquisadora.

No Brasil, a laicidade estabelece a separação institucional entre Estado e religiões, ao mesmo tempo em que garante a liberdade de crença, de culto e também o direito de não professar uma religião.

Religião e comportamento político

Durante o congresso, pesquisadores também discutiram como valores religiosos podem ser incorporados ao discurso e à mobilização política.

Michel Gherman, que lidera o Observatório das Crises das Democracias das Américas (UNLP) da UFRJ, avaliou que movimentos de extrema direita conseguiram instrumentalizar determinados valores ligados à percepção religiosa do mundo.

Segundo o pesquisador, não teria sido simplesmente o crescimento do cristianismo protestante no país que fortaleceu politicamente esses movimentos, mas a capacidade de setores políticos de incorporar determinados valores e sentimentos religiosos às suas narrativas.

Gherman citou ainda dados segundo os quais sete em cada dez candidatos a cargos políticos no Rio de Janeiro acreditariam — ou afirmariam acreditar — na existência de uma espécie de conspiração progressista voltada à degeneração moral por meio da escola.

Valores, identidade e voto

Christina Vital também destacou a existência de uma narrativa relacionada à percepção de que determinados valores ou características sociais existentes no passado estariam sendo perdidos.

Segundo a pesquisadora, essa sensação atravessa diferentes grupos sociais e pode assumir contornos políticos distintos, tanto à esquerda quanto à direita.

O cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB), chamou atenção para a relação estatística identificada entre pertencimento religioso e comportamento eleitoral.

“Mas é um fato que existe regularidade estatística entre ser evangélico e votar na extrema direita. Isso significa uma relação de identidade: os brasileiros votam em quem julgam que se parecem com eles”, afirmou.

Os dados apresentados pelo levantamento ajudam a dimensionar a presença da religião no debate público brasileiro, especialmente em um contexto eleitoral. Ao mesmo tempo, evidenciam que crença individual, confiança em instituições religiosas, compreensão sobre o Estado laico e comportamento político são dimensões diferentes e que não devem ser interpretadas automaticamente como equivalentes.

Com 81% dos entrevistados atribuindo importância à crença em Deus por parte dos candidatos, a pesquisa indica que valores religiosos continuam sendo um elemento relevante na forma como uma parcela significativa da população brasileira enxerga seus representantes políticos.

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