• 24/07/2024

‘Divertida Mente 2’: o que podemos aprender com as novas emoções que protagonizam o filme

Uma história divertida que nos permite visualizar nossos processos internos, mesmo que seja por meio de desenhos animados.

Essa ideia faz parte do sucesso de um dos lançamentos mais populares de Hollywood neste verão, o filme de animação “Divertida Mente 2“.

Produzido pela gigante Pixar, e dirigido por Kelsey Mann, é também uma peça educativa que abre portas para compreender melhor como as emoçõesimpactam —positiva ou negativamente— a vida dos adolescentes (embora também de pessoas de outras faixas etárias).

O filme é uma continuação deDivertida Mente” (2015), que conta a história de Riley, 11, que precisa enfrentar a mudança para uma nova cidade enquanto suas emoções, transformadas em seres antropomórficos, lutam para manter o equilíbrio em sua mente.

No primeiro filme, a jovem tem que lidar com Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojo.

Já no segundo filme, voltamos à vida de Riley em São Francisco, na Califórnia, onde ela faz novos amigos e passa o tempo na pista de hóquei no gelo. Suas emoções são uma equipe que, de uma forma ou de outra, funciona bem.

Até que o alarme da puberdade dispara.

Nesse período, novas emoções chegam à sua “sala de controle” ou cérebro: Ansiedade, Vergonha, Inveja e Tédio.

A maior parte da história se passa no acampamento de hóquei, um microcosmo do mundo social dos jovens. Lá, a personagem principal está prestes a fazer a transição para o ensino médio, onde espera ingressar na equipe esportiva.

As mudanças que Riley enfrenta podem muito bem ser situações da vida real e, como ela, observar nossas emoções pode nos ajudar a enfrentá-las.

Por isso, reunimos a visão de especialistas sobre o que podemos aprender com os novos personagens da animação.

ANSIEDADE

“Divertida Mente 2” mostra que a ansiedade é um sentimento normal e que pode ter um propósito positivo, desde que não tome conta de nós.

No filme, ela assume o controle e é mostrada como uma emoção que ajuda Riley a evitar consequências prejudiciais para seu futuro.

“Um grande fator na ansiedade de Riley é o medo de não ter amigos no ensino médio. Isso é algo razoável para se preocupar. As relações com os nossos pares se tornam cada vez mais importantes nesta fase da vida e as experiências de amizade dos adolescentes estão ligadas ao nosso bem-estar”, afirmou Alana James, professora de psicologia da Universidade de Reading, no Reino Unido, em uma coluna do site The Conversation.

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Mas a especialista acrescentou que certamente existem transtornos de ansiedade, como a ansiedade generalizada, que podem se desenvolver desde tenra idade. E atualmente afeta os jovens em taxas elevadas, por isso devemos prestar atenção a isso.

“Há evidências de que as taxas de ansiedade em adolescentes têm aumentado e que estas têm um impacto a longo prazo com uma variedade de efeitos, desde o desempenho escolar até ao rendimento na idade adulta“, afirmou.

James deixa claro que existe uma diferença entre o sentimento de ansiedade que vemos em “Divertida Mente 2” e um transtorno de ansiedade.

Ter preocupações é uma parte típica do crescimento, assim como é uma parte típica da vida adulta, observa.

TÉDIO

Para Tina Kendall, professora de cinema na Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, embora a ansiedade nos ajude a planear o futuro, o tédio é “um apelo à ação, um sinal para nos comprometermos mais ou tentarmos algo diferente”.

A especialista menciona que nas redes sociais é comum que associem o descompromisso e a apatia ao tédio.

É por isso que procuram estabelecer a ligação entre o uso de dispositivos digitais e o abandono do tédio.

“Os telefones são frequentemente apresentados como ferramentas para combater o tédio, a qualquer hora e em qualquer lugar”, observou Kendall em um artigo do The Conversation.

“Mas a pesquisa mostrou que quanto mais usamos smartphones para nos distrair do tédio, maior o risco de nos sentirmos entediados”, disse.

Nas últimas décadas, estudos mostraram uma correlação entre o aumento do tédio e problemas de saúde mental, afirma.

“Divertida Mente 2” não aborda esses aspectos potencialmente negativos do tédio. Em vez disso, ele acentua seu papel positivo em ajudar Riley a lidar com a intensidade da vida adolescente.

Ao longo do filme, Ennui (como o tédio é chamado em francês), com forte sotaque francês, fica deitada em um sofá com um agasalho azul-escuro, olhando desapaixonadamente para a tela de seu smartphone.
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Enquanto a Ansiedade queima a tela com sua energia nervosa frenética, Ennui espreita.

Em momentos-chave do filme, ela assume o controle do console de Riley, influenciando sua experiência emocional ao diminuir a intensidade da garota.

INVEJA

A inveja, diz a psicóloga pediátrica Lyssa Haase à revista especializada Parents, ocorre quando vemos algo desejável em outra pessoa.

“A altura, o senso de humor ou seus talentos artísticos ou musicais”, comenta.

No filme, assim como o Tédio, vemos como essa emoção comumente considerada negativa na vida real tem um resultado benéfico para o protagonista.

Dacher Keltner, psicólogo da Universidade de Stanford, na Califórnia, que foi consultor da produção de “Divertida Mente 2”, disse à revista Time que a inveja pode nos levar a desejar “uma promoção no emprego, um convite para uma festa ou atenção na mesa de almoço se você for uma menina de 13 anos.”

“Há novas pesquisas na Europa que diferenciam um tipo de inveja maliciosa (talvez você prejudique o trabalho de alguém ou fale sobre ele para tentar derrubá-lo) de uma forma mais benigna, em que o invejoso trabalha mais para ganhar uma recompensa”, explicou o especialista.

No filme, justamente, os cineastas tiveram o cuidado de não retratar a Inveja como vilã. Ela é pequena, doce e tem olhos grandes.

Como explica uma crítica da revista People, essa emoção ajuda Riley a identificar o que ela deseja em sua vida, incluindo o desejo de fazer amigos nos novos ambientes em que se movimenta.

VERGONHA

A vergonha é apresentado como um personagem corpulento, que sempre usa um moletom no qual esconde parte do rosto. No filme ele fala muito pouco.

A diretora do filme, Kelsey Mann, disse em entrevista ao USA Today que a intenção era projetar o “verdadeiro sentimento de vergonha”.

No processo de produção do filme, a equipe questionou se a vergonha era uma emoção, diz o psicólogo Keltner em entrevista à Time.

Segundo a especialista, esse sentimento tem um “contexto social”, na medida em que nos torna conscientes do julgamento alheio. Isso nos move de certa forma a respeitar as normas sociais.

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“Se você violar as normas sociais, você ficará vermelho e isso fará com que as pessoas o perdoem. Diz aos outros que você está ciente das normas sociais e que sabe que cometeu um erro e que sente muito. É uma experiência dolorosa, mas essencial para a nossa vida em sociedade”, comenta.

NOSTALGIA

No filme há uma quinta emoção que só aparece de forma fugaz em duas cenas: a Nostalgia.

Ela é retratada como uma velha gentil.

Para Javier Leñador González-Páez, professor de história da arte na Universidade de Sevilha, na Espanha, em certo sentido o personagem “coincide com a revisão que tem sido feita da nostalgia pela psicologia, colocando-a como uma emoção eminentemente positiva, apesar do notas melancólicas que podemos experimentar.”

Porém, ele afirma que, ao mostrá-la como uma pessoa idosa e associá-la à letargia, pode fazê-la ir na contramão da mesma pesquisa que lhe confere um caráter benéfico.

O pesquisador comenta o quão significativo é ver a Ansiedade questionando a Nostalgia no filme quando esta chega à sala de controle de Riley.

“A ansiedade é uma emoção preocupada com cenários futuros ameaçadores que busca literalmente romper com o passado. Ela o nega, sabendo que isso poderia frustrar seus planos, já que as lembranças podem comover Riley emocionalmente, clamando por emoções que podem ajudar a acalmar sua ansiedade. É como se ela soubesse que a nostalgia, apesar de sua aparência indefesa, é capaz de enfraquecê-la”, explica Leñador González Páez.

O professor afirma que esta é a realidade desenhada por diversos estudos psicológicos e culturais.

E acrescenta: “A nostalgia pode ser entendida como uma resposta natural à ansiedade que nos produz um presente acelerado e cheio de mudanças, uma espécie de mecanismo de defesa com o qual valorizamos etapas vitais anteriores para continuar a olhar para o futuro com maior senso de controle. Talvez com Nostalgia tudo teria sido muito mais fácil dentro da mente de Riley.”

(BBC News)

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