• 21/06/2024

PT e governo batem cabeça sobre ato de rua em resposta a manifestação de Bolsonaro

Integrantes do PT e do governo Lula (PT) se dividem sobre a conveniência de convocação de ato em defesa da democracia já anunciado pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann (PR), e previsto para ocorrer no próximo dia 23.

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Embora a cúpula do partido negue que essa seja uma resposta à manifestação que, no domingo, reuniu milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na avenida Paulista, em São Paulo, aliados de Lula afirmam que a comparação do número de participantes será inevitável.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília – Adriano Machado – 1º.fev.24/Reuters

Flyer compartilhado por Gleisi nas redes sociais nesta quinta-feira (29) convocando para o ato diz que a manifestação será o Dia Nacional de Mobilização em Defesa da Democracia e terá como um dos motes “sem anista” —em contraposição ao discurso de Bolsonaro na Paulista, no qual ele pediu anistia aos presos pelo ataque golpista de 8 de janeiro de 2023.

“As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo em conjunto com os partidos do campo democrático e popular e entidades da sociedade civil convocam para a Jornada de Luta em Defesa da Democracia: sem anistia, punição aos golpistas. Golpe nunca mais!”, diz o texto do flyer.

Organizado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, o ato terá apoio de partidos de esquerda, como PT, PC do B, PV, Rede, PSOL, PSB e PDT.

Reportagem da Folha desta quinta (29) mostrou que movimentos e partidos de esquerda decidiram vetar o mote da prisão de Bolsonaro como bandeira da manifestação. A definição em consenso foi a de pregar o lema “sem anistia para golpista” e lembrar os 60 anos do golpe militar de 1964, difundindo a mensagem de que novas tentativas de ruptura devem ser combatidas.

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Líderes da mobilização se irritaram com materiais que circularam dando conta de que o pedido de prisão seria um dos chamarizes do ato. O argumento que prevaleceu nos debates fechados foi o de que o direito de defesa e o devido processo legal têm que ser resguardados, assim como se reivindicava para Lula.

Também há a previsão de manifestações para os dias 8 de março, Dia Internacional da Mulher, 14 de março, data que marca seis anos do assassinato da vereadora Marielle Franco, e 1º de maio, Dia do Trabalhador.

“A defesa da democracia e punição dos golpistas precisa de mobilização nas ruas. Anistia não”, diz Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP (Central de Movimentos Populares) e integrante da Frente Brasil Popular.

Segundo relatos colhidos pela reportagem, há uma tendência de que o principal ato no dia 23 seja realizado em Salvador, na Bahia, estado governado pelo PT. A ideia é que as principais lideranças possam estar concentradas num mesmo lugar, mas sem inviabilizar que outras manifestações ocorram nas demais capitais do país.

Bahia garantiu expressiva votação ao petista nas eleições de 2022 —Lula teve 72,12% dos votos.

Há uma avaliação de que o partido conseguirá mobilizar um grande número de apoiadores na capital do estado. A decisão de concentrar ali o principal ato, no entanto, ainda não foi batida e está sendo discutida.

A tendência é evitar a avenida Paulista como ponto escolhido na capital paulista, pelo temor de que a comparação com o ato bolsonarista seja desfavorável.

Gleisi diz à Folha que a mobilização não é uma resposta ao ato bolsonarista. “Defendo como ação contínua de enfrentamento às mobilizações e ações da extrema-direita, também como apoio às políticas que defendemos”, afirma.

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Sobre o ato convocado por Bolsonaro, ela diz que o ex-presidente reuniu seus apoiadores “para continuar atentando contra a democracia e deve seguir nesse caminho”.

Com a simpatia de ministros petistas, uma ala do PT avalia que o governo precisa fazer o debate político nas ruas, mas a partir de lançamentos de programas do Executivo, em vez da convocação de ato público. A ideia seria garantir presença popular nas inaugurações e lançamentos de programas, com Lula.

Os petistas também divergem sobre a participação do próprio presidente. Uma ala do partido chega a defender que Lula convoque o ato, o que é rechaçado por parte da equipe ministerial.

Outra ala sugere que Lula seja publicamente convidado, ainda que seja para recusar o convite —o que poderia vir a justificar uma adesão inferior à da manifestação pró-Bolsonaro.

Outro argumento contrário à ideia de que a convocação parta do petista é que ele não deve repetir o exemplo de seu antecessor, que durante o seu governo conclamava apoiadores às ruas.

Vice-presidente do PT, Washington Quaquá (RJ), é um dos que afirmam que a resposta está no sucesso do governo. Segundo ele, os programas sociais e a economia vão assegurar apoio popular ao governo Lula.

Na segunda-feira (23), dia seguinte ao ato bolsonarista, a cúpula do PT debateu a magnitude da manifestação. Segundo participantes, a constatação foi de que Bolsonaro conta com apoio institucional e reúne a direita. Na avaliação de petistas, a polarização continua.

Na reunião, prevaleceu a relevância de políticas públicas para aumento de popularidade do governo, em contraposição à convocação de atos. Apesar dessa concepção, não houve resistência à proposta de organização de atos, defendida por Gleisi.

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“Não podemos deixar as ruas só com eles. É um erro político gigantesco. Na história recente do Brasil, as ruas têm se mostrado decisivas”, diz o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

Sob reserva, parlamentares aliados do petista reconhecem que a manifestação em São Paulo mostrou que Bolsonaro ainda tem capacidade de mobilizar apoiadores e que isso deverá ter efeitos nas eleições de outubro. Isso porque os potenciais candidatos enxergam vantagens em ter sua imagem associada à do ex-presidente.

Por isso, avaliam, é preciso que os partidos também passem a ocupar esses espaços. Também na segunda-feira, Gleisi se reuniu virtualmente com mais de 5.000 dirigentes do PT para debater estratégias do partido para as eleições.

Em entrevista à RedeTV! nesta semana, o próprio Lula reconheceu que o ato bolsonarista foi “grande”, dizendo que “não é possível você negar um fato”.

Lula afirmou que as imagens da manifestação comprovam o tamanho do ato. “Eles fizeram uma manifestação grande em São Paulo. Mesmo que não quiser acreditar, é só ver a imagem. Como as pessoas chegaram lá ‘é outros 500′”, disse.

“Defender a democracia deve ser um princípio de toda a sociedade e não de um partido de esquerda. Nós temos que ter as ruas e as redes para continuar transformando o país e não só como resposta ao que Bolsonaro fez. Defender a democracia, o governo e as pautas da sociedade, inclusive para pressionar o Congresso para que as pautas que defendemos avancem”, diz o deputado Pedro Uczai (PT-SC).

(Folha de São Paulo)

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