A criação de moradias no Setor Comercial Sul (SCS) é uma das principais propostas apresentadas nos relatórios da segunda e terceira etapas do Diagnóstico do Setor Comercial Sul, concluídos pela Universidade Católica de Brasília (UCB) em parceria com o Parque de Inovação e Sustentabilidade do Ambiente Construído da Universidade de Brasília (Pisac-UnB). O estudo integra o projeto de implantação do futuro Polo Criativo Tecnológico da região e aponta a ocupação residencial como estratégia para reverter o esvaziamento urbano e estimular a revitalização da área.
Atualmente, o SCS concentra cerca de 10 edifícios e aproximadamente 1,2 mil lojas e salas comerciais desocupadas. Segundo o coordenador da pesquisa e do Programa de Pós-Graduação em Inovação em Comunicação e Economia Criativa da UCB, Alexandre Kieling, existem condições para a implantação de moradias no setor, desde que sejam respeitadas as diretrizes de preservação do patrimônio histórico definidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A proposta é inspirada em modelos internacionais de requalificação urbana, como o conceito da “Cidade de 15 Minutos”, adotado em Paris, onde os moradores têm acesso facilitado a serviços essenciais, trabalho, lazer e comércio em seu entorno. A ideia é atrair diferentes perfis de moradores, incluindo estudantes, jovens profissionais e pessoas que utilizam os serviços hospitalares da região.
Os relatórios foram apresentados em evento realizado no auditório do Sesc Presidente Dutra, no próprio Setor Comercial Sul. Durante a cerimônia, o presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, reforçou a importância da ocupação residencial para o desenvolvimento da área.
“Quando tivermos pessoas morando aqui, haverá mais movimento e daremos nova vida ao setor, com bares, restaurantes, escolas e novas atividades comerciais”, afirmou.
Polo Criativo Tecnológico pode ser criado até 2027
O diagnóstico é desenvolvido com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Distrito Federal (Secti-DF), dentro do programa Desafio DF, lançado em 2023.
Os documentos apresentam propostas técnicas, jurídicas, urbanísticas e estratégicas para orientar a criação do Polo Criativo Tecnológico do Setor Comercial Sul. Com a conclusão das etapas acadêmicas, a expectativa é que a nova estrutura seja oficialmente instituída até o fim de 2026 ou no início de 2027, por meio de decreto ou legislação específica do Governo do Distrito Federal.
Hoje, o Setor Comercial Sul abriga mais de 5,5 mil empresas ativas, com forte presença dos segmentos de serviços, comércio, tecnologia e economia criativa. Levantamentos anteriores já haviam identificado centenas de agentes culturais, empreendedores criativos e empresas de base tecnológica instalados na região.
Investimentos reforçam processo de revitalização
A revitalização do SCS também vem recebendo investimentos do Sistema Fecomércio-DF. Entre as iniciativas estão as reformas das unidades do Sesc Presidente Dutra e do Senac Enius Muniz, especializado em cursos de Tecnologia da Informação, Gestão e Economia Criativa.
Em março de 2025, o Senac-DF inaugurou no setor o Centro de Educação Profissional Miguel Setembrino, considerado o maior da instituição no Distrito Federal. Juntas, as unidades têm capacidade para atender cerca de 7 mil estudantes. O Instituto Fecomércio-DF também ampliou sua atuação na região por meio de programas de estágio e Jovem Aprendiz.
Para o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do DF, Rafael Vitorino, a conclusão das novas etapas representa um avanço importante para a transformação da área central de Brasília.
“Estamos construindo um projeto estruturante que conecta inovação, criatividade, desenvolvimento econômico e valorização urbana”, destacou.
Planejamento estratégico e propostas urbanísticas
A segunda fase do diagnóstico consolidou um plano estratégico que contempla modelos de gestão, governança, estrutura jurídica, desenvolvimento econômico, sustentabilidade e um plano diretor para o futuro polo.
Já a terceira etapa foi dedicada às propostas arquitetônicas e urbanísticas para a região. O estudo elaborado pela Pisac-UnB apresenta diretrizes para qualificação dos espaços públicos, integração entre áreas públicas e privadas, melhorias na mobilidade, fortalecimento das atividades culturais e criação de ambientes voltados à inovação.
Os pesquisadores defendem ainda a criação de uma estrutura permanente de governança, reunindo representantes do governo, universidades, setor produtivo e comunidade local. O modelo prevê um comitê estratégico e uma entidade jurídica própria responsável pela execução e continuidade das ações.
De acordo com Alexandre Kieling, experiências de sucesso, como o Porto Digital, em Recife, demonstram que projetos dessa natureza dependem de uma governança estável e de uma instituição capaz de conduzir sua implementação a longo prazo.
“Sem uma figura jurídica própria, o polo fica sujeito às mudanças de prioridades de cada governo ou conjuntura. A governança é fundamental para garantir continuidade e resultados”, concluiu.

