Empresários defendem cautela na discussão sobre mudanças nas regras trabalhistas e alertam para impactos sobre investimentos, contratações e competitividade do Brasil
A proposta de redução da jornada de trabalho e as discussões em torno do fim da escala 6×1 têm provocado preocupação entre representantes do setor produtivo. Empresários defendem que uma mudança dessa dimensão seja precedida por estudos técnicos e amplo diálogo sobre os possíveis impactos para trabalhadores, empresas, geração de empregos e economia brasileira.
O argumento é que o debate ocorre em um momento no qual empresas já enfrentam juros elevados, crédito restritivo, custos operacionais, complexidade tributária e aumento da inadimplência.
Nesse cenário, representantes empresariais avaliam que novas mudanças nas relações de trabalho, especialmente em um ano eleitoral, precisam ser analisadas com cautela para evitar aumento da insegurança jurídica e dos custos de produção.
“Mudar as regras do trabalho às vésperas das eleições? Agora não.”
A frase sintetiza o posicionamento de setores empresariais que defendem previsibilidade e segurança jurídica para estimular investimentos, expansão das empresas e geração de empregos.
Confiança também está no centro do debate
Para o setor produtivo, uma das principais preocupações está relacionada à confiança de quem decide onde investir.
Empresas consideram diversos fatores antes de direcionar recursos para determinado mercado, entre eles tributação, custos trabalhistas, infraestrutura, segurança jurídica, disponibilidade de mão de obra e perspectivas de crescimento.
A avaliação dos empresários é que mudanças frequentes ou incertezas sobre as regras podem levar à postergação de investimentos e decisões de expansão.
Também existe preocupação com empresas brasileiras que buscam ampliar operações em outros países. Entre os destinos frequentemente citados no debate empresarial está o Paraguai, que dispõe de mecanismos como o regime de Maquila para incentivar operações produtivas destinadas principalmente à exportação.
Representantes do setor mencionam ainda Estados Unidos e países europeus entre os mercados considerados por empresas interessadas em internacionalização.
Há também a afirmação, apresentada no debate empresarial, de que 23 empresas brasileiras teriam migrado para o Paraguai atraídas, entre outros fatores, pelo regime de Maquila. O número, entretanto, não foi localizado em fonte oficial consultada e, portanto, não deve ser interpretado como dado consolidado.
Independentemente desse número específico, o argumento central dos empresários permanece: quando um país perde competitividade e previsibilidade, novos investimentos podem buscar outros mercados.
Reforma tributária entra na lista de preocupações
A implementação da reforma tributária é outro elemento observado pelo empresariado.
O novo sistema prevê um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, formado pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), administrado por estados e municípios.
Em agosto de 2026, o Comitê Gestor do IBS utilizou uma estimativa conjunta de 27,91% para IBS e CBS para subsidiar projeções relacionadas à arrecadação. O percentual não representa, porém, a definição da alíquota final do novo sistema.
A legislação estabelece mecanismos de revisão caso as estimativas ultrapassem a referência de 26,5%. A transição do atual modelo tributário ocorrerá gradualmente. (Portal Contabeis)
Para o setor produtivo, mesmo sendo uma estimativa e não uma alíquota definitiva, o percentual reforça a necessidade de acompanhar os efeitos da reforma sobre diferentes atividades econômicas.
A preocupação é particularmente relevante para empresas que precisam decidir agora sobre contratações, abertura de unidades e investimentos que terão retorno ao longo dos próximos anos.
Inadimplência empresarial bate recorde
Outro indicador reforça o alerta sobre a situação financeira das empresas.
O Brasil ultrapassou 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes em junho de 2026, maior patamar da série histórica da Serasa Experian. As dívidas negativadas dessas empresas chegaram a R$ 232,9 bilhões.
As micro e pequenas empresas representam a maior parcela do problema: aproximadamente 8,6 milhões dos CNPJs negativados pertenciam a esse grupo, segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian. (Serasa Experian)
Serviços concentravam 55,7% das empresas inadimplentes, enquanto o comércio respondia por 32,2%. (Serasa Experian)
Para o setor produtivo, os números demonstram que muitas empresas já atravessam um momento de forte pressão sobre o caixa.
Mais de 6 mil empresas estão em recuperação judicial
A situação também aparece nos dados de recuperação judicial.
Levantamento do Monitor RGF-BizDoc apontou que o Brasil encerrou junho de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, alta de 6,2% em comparação ao final de 2025.
Em maio, o número havia alcançado o recorde de 6.513 empresas, antes de recuar no mês seguinte. (CRCSP)
Os pequenos negócios também chamam atenção nesse indicador. Desde o início de 2023, o número de microempresas em recuperação judicial passou de 513 para 1.575 CNPJs, praticamente triplicando no período. (CRCSP)
O quadro reforça o argumento empresarial de que qualquer alteração capaz de elevar custos precisa considerar especialmente a realidade dos pequenos negócios, que normalmente possuem menor capacidade financeira para absorver mudanças abruptas.
Consumo pressionado afeta comércio e serviços
A situação financeira das famílias completa o cenário de preocupação.
Com parte relevante da renda destinada ao pagamento de dívidas e compromissos financeiros, consumidores tendem a ficar mais cautelosos. Isso pode atingir diretamente comércio e serviços, justamente os setores que dependem fortemente do consumo das famílias.
Dados econômicos divulgados pela Serasa Experian mostram que o comprometimento de renda das famílias chegou a 28,5%, enquanto indicadores de atividade apontaram perda de ritmo em segmentos da economia. (Serasa Experian)
Para quem empreende, uma combinação de vendas mais fracas, juros elevados e custos operacionais crescentes reduz a margem disponível para investimentos e novas contratações.
Concorrência internacional também preocupa varejistas
Outro ponto levantado por representantes do comércio envolve as condições de concorrência entre empresas brasileiras e plataformas internacionais.
O debate ganhou força com a tributação das remessas internacionais de pequeno valor, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.
Representantes do varejo argumentam que uma empresa instalada no Brasil precisa arcar com uma estrutura mais ampla de tributos, encargos trabalhistas e custos operacionais do que aquela observada pelo consumidor apenas no momento da tributação de uma compra internacional.
Comparações diretas entre percentuais, entretanto, precisam considerar que os sistemas tributários e as bases de incidência são diferentes. A carga efetiva de uma empresa brasileira varia conforme produto, atividade, estado, regime tributário e outros fatores.
Ainda assim, para o comércio nacional, garantir condições equilibradas de concorrência é considerado essencial para preservar empresas, empregos e arrecadação dentro do país.
“A conta já está alta demais”
É nesse contexto que representantes empresariais colocam a redução da jornada de trabalho no centro das preocupações.
O setor argumenta que a questão não envolve apenas a quantidade de horas trabalhadas, mas também os possíveis reflexos sobre escalas, folha de pagamento, produtividade, necessidade de novas contratações e organização operacional.
Atividades que funcionam seis ou sete dias por semana podem enfrentar desafios diferentes daqueles observados em empresas que operam apenas em horário comercial.
Por isso, empresários defendem que as particularidades de comércio, serviços, turismo, alimentação, indústria e demais segmentos sejam consideradas antes da aprovação de uma regra geral.
Debate também envolve qualidade de vida do trabalhador
Do outro lado da discussão, defensores da redução da jornada argumentam que mudanças podem proporcionar mais descanso, convivência familiar e qualidade de vida aos trabalhadores.
Esse é um dos pontos centrais do debate sobre o fim da escala 6×1 e não pode ser desconsiderado.
A discussão, portanto, envolve o desafio de conciliar melhores condições de trabalho com produtividade, sustentabilidade financeira das empresas e preservação dos empregos.
Setor produtivo pede diálogo antes de novas mudanças
Representantes empresariais defendem que mudanças profundas nas relações de trabalho sejam discutidas com trabalhadores, empresas, especialistas e diferentes setores da economia.
O pedido é por previsibilidade, segurança jurídica e tempo para avaliação das consequências econômicas.
Na visão do setor produtivo, aumentar custos sem dimensionar os efeitos pode produzir resultados indesejados, como adiamento de investimentos, redução de contratações, automação acelerada de determinadas atividades ou busca por mercados considerados mais competitivos.
Ao mesmo tempo, o debate sobre jornada de trabalho coloca na mesa uma demanda crescente por melhores condições e maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Encontrar um ponto de equilíbrio entre essas duas necessidades será um dos desafios do Congresso.
A discussão, portanto, vai além do número de horas trabalhadas ou da escala 6×1. Ela envolve uma questão mais ampla: como melhorar as condições de trabalho sem comprometer a capacidade das empresas de investir, crescer, gerar empregos e permanecer competitivas no Brasil.


